segunda-feira, 26 de agosto de 2013

O TÚNEL

                                 

As luzes passam rápidas e o concerto segue,
na atmosfera carregada.
E o retrato da vida que passa na janela de vidro !
Como num féretro as luzes passam,
rápidas, brancas, silenciosas,
como crianças brincando de assustar.
Os seres pálidos se calam
na surpresa da morte
no frio do túmulo.
Vivos !!! Enterrados vivos !
Penetra um raio de sol mudo de medo         

e rompe a clausura da treva                          
pelo buraco aberto.
Corre a vida... corre o tempo sem parar
no relógio da Mesbla.
Lá fora, cantam as aves,
o oxigênio transborda da taça do dia.
Isolados do mundo,
exilados da vida,
eremitas na cidade.
Mil. Cem. Duzentos
pensam:
no namorado; na casa dos pais;                          

na guerra; na paz  etc. e tal.
Cada face branca lembra a vida
lá fora,
e caminham para o final incerto.
Cá, fogem :
da vida; do salário;
da polícia; de Deus e tantas coisas mais...
Aqui, irmãos, solenes, místicos,
vendo na boca escancarada
a meta;
o sol;
o céu;
o som.
Aqui, irmãos
lutarão lá fora por um ideal
e se distanciarão desta calma maravilhosa
que estas luzes brancas, misteriosas
dão.



                    17.08.1971


CRISTO


                                





Cristo um nome sem rima na era poesia,                                  
e um mundo esquecido nas lembranças passadas.

Cristo que mora na esquina, que vive lá em casa,
tá muito “na dele” e todos na Sua.

Cristo ensinou liberdade mas permanece preso,
no medo e nas trevas do espírito humano.

Cristo que vai e que vem, na guerra e bordéu,
não para um segundo atendendo ao mundo.                     


Cristo palhaço em piadas, estrela, político,
eleito dos jovens, esposo das virgens.

Cristo em nome de quem se comete iniqüidades
e se jura de pés juntos.

Cristo mito !!!

Cristo, eu vejo tua subida ao poder
E choro de agonia.

A quem redimiste ???

Mereceu ??? 



                                                                                                











                          17.08.1971

VAZIO

                             


Já não existe amanhecer bonito,
Já não existe olhar limpo de dor.
Assim como as nuvens mancham o infinito,
Mancha a  minh’alma este torpe amor.

São minhas noites povoadas de visões,
Angústia, medo e insatisfações,                                          
Como minhas noites sinistras de criança.
E este vazio no peito me angustia,
E esta falta tão triste de alegria                                           
Faz-me viver somente p’rás lembranças.

Só, eu relembro as noites já passadas
Na euforia das horas consagradas
A um viver glorioso e intenso.                                 
Sinto-me fraca, triste e vencida,
E a solidão que oprime minha vida
Eu luto, luto, e nem assim a venço.
Sem solução, sem rumo ou destino,                     
Entregue ao meu próprio desatino
Vazia vago. Vivo por viver.
De ser tão inútil nem mesmo Deus tem pena,
Ou pediria uma vida  mais serena
Pelo menos na hora de morrer.

A estrada é longa. Não corro nem descanso,
Passos vazios de quem não quer chegar.
Sou como o rio que corre sempre manso
Sabendo que nunca, nunca vai voltar !




                                     06.01.1981

sábado, 24 de agosto de 2013

ANGÉLICA NA ESTAÇÃO

                                 





Em cima da alta escada, com um beijo morto na boca,
Angélica, angelical, vestida de renda irradia só ternura.
Sua imagem se assemelha à santa, deusa ou a louca,
acenando o já molhado, lencinho de seda pura.

Seu rosto lavado e branco verteu pranto até agora,
não se nota mais pintura no seu olhar tão molhado.
Seu lenço agita-se ao vento pois já é chegada a hora,
de sentir a longa ausência daquele que é seu amado.

                          


                              


Angélica, angelical nos seus descalços pezinhos,
tem a boquinha tremida e o cabelo solto ao vento,
de carmim pintou seu rosto que agora fica limpinho
sem o carinho gostoso que parte neste momento.
                             

Lembra as carícias ousadas de quem se vai neste trem,
recorda sem um rubor, conversas bem excitantes.
Odeia por um momento o tempo que vai e vem
e o tempo que vem agora, a separa do amante.

                                                               


Angélica, angelical  lembra o passado proibido,
e não se lhe quebra no olhar, a inocência e a castidade.
Seu prazer passado e limpo, foi prazer mais que sentido,
nas mãos sábias e macias do que vai p’rá outra cidade.

É hora ! Seu lenço se agita como seu coração palpita,
e o sorriso meio ao pranto é uma dádiva de Deus.
Seu amado parte agora, neste trem que ainda apita,
e tem que levar na lembrança, só um dos sorrisos seus.



Parte o trem e Angélica fica sozinha.
Antes que o dia morra e o sol entre,
desce do colo sua fina mãozinha
e acaricia o anjo que já vive no seu ventre.




                                                 1971


       

A FOSSA DA TIJUCA



Esta menina que acompanha o sol que já morreu,               
 abraça-se no tronco, aconchega-se à raiz,
nasceu, cresceu e vive semi agonizante
porque esta menina que sorri, não é feliz.

Ela acompanha com o olhar o amorenar do dia,
e a mata aliada lhe sussurra mil malícias.
Seu olhar se volta invejoso e cruel em plena tarde,
saboreando o gosto de alheias carícias.



                     A água cai, cascateando rica espuma alva,
                     e este véu diáfano lhe coroa o coração.
                     Esta menina que sorri, projeto de mulher
                     casa-se chorando com a doce solidão.                   


                    Porque seu pranto se afoga nesta mágoa,
                    e nem o céu se lhe apresenta inteiro
                    ela sorri e abraça assim a natureza
                    que é seu afeto real e verdadeiro.



Sua pele morena se confunde com a tarde,
e sua oração se vai com o sol que se escondeu.
Esta menina que hoje chora, chorou sempre,
pelo afeto sincero que a vida não lhe deu.

Enquanto chora a mocinha em plena selva,
os risos alheios soam na planície escura.
Assusta-se a inocente com a mentira que lhe trazem,
 mas sorri mentirosa da mentira pura.





  Abandona a selvagem mata o insólito ser             

  sabendo que p’rá sempre em seu viver
  haverá uma selva de pranto e de desejo.

  Sorri dengosa na mentira ingênua e louca,
  e o escárnio que se vê em sua boca,
  mais se assemelha a imaginário beijo.








                                                       01.07.1971

                     


PESADELO







Olhar aberto num último desejo,
dentes à mostra no primeiro sorriso.
Caiu. Caiu. Caiu !...
e acordou do pesadelo molhado de suor.
As luzes brilhavam, o sol se apagou
e a noite caiu silenciosamente no abismo.
A bomba explodiu, o rio rolou.
Tudo terminou...
Assim que o sol nasceu, o vulcão se apagou
e só restou um mar fervente de sangue.
Troou o trovão e a luz morreu
quando iniciou a tempestade.
O vento fustigou a luz.
Escureceu o tempo e o sorriso mudou.
Estranho espetáculo:
o carvalho oscilou sob a tempestade
e com ruído ensurdecedor caiu.
Caiu. Caiu. Caiu !...
e acordou do pesadelo molhado de suor.







              18.06.1971

AO MULATO




Eu te amo mulato altivo,
Como em minha vida jamais amei.
És para mim o tudo entre o nada,
E uma noite infinda em seu olhar achei.

Amo-te mulato, nesta tua aridez
E anseio por sentir em mim, os lábios teus.
Amo-te mulato, no mistério em que te envolves
Perfeita e pura criação de Deus.

                  
                                                    Amo-te mulato nesta cor noite escura,
                                                    Com esta languidez que é tua natureza.
                                                    Amo-te mulato nesta negra estátua,
                                                    Ornada da mais rústica beleza.

                                                    Amo-te mulato nestas mãos imensas,
                                                    Que inquietas revelam o teu ser.
                                                    Amo-te mulato neste teu sorriso
                                                    E eu teu sorriso se resume o meu querer.

Amo-te mulato neste oriente
Que esconde tua boca e teus beijos.
Amo-te mulato neste corpo ardente
Que me enche de volúpia e de desejo.

Amo-te mulato nesta tua simplicidade,
E esta tua pureza me cobre de temor.
Como é que pode, alguém assim tão diferente
M e dar sem medo, seu profundo amor ?

                                                      Amo-te mulato, com muita, muita força
                                                      E este teu jeito me enche de emoção.
                                                      Amo-te mulato, conseguiste incendiar,
                                                      A Roma erma e gélida do meu coração.

Amo-te mulato, com seu ´porte,
       E quem cativa seu amor está com sorte,
                 Pois para o conseguir, só mesmo sendo ágil.

                Amo-te sublime consorte,
       Magnífico exemplar do sexo forte,
Já que eu teus braços sou pequena e frágil.

                                             


                                         20.07.1971

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

HOJE EU QUERIA...

     




Hoje eu queria estar num lugar bem distante
Saboreando a natureza e não pensando em nada,
Porque a enxurrada de pensamentos que assola meu cérebro
Me desenha na mente, ruínas.
Hoje eu queria estar num local ermo e cheio de natureza
Para me sentir móvel e viva
Mas estou triste.




                                                                                                                                                                    Hoje eu queria estar no passado,
                                  para viver diferente e assim caminhar                                                                          mas estou presa no presente, renegando o  futuro
                                      sem poder fugir dele,
                                       que espezinha minha vontade de viver.
                                        Hoje eu queria voltar no tempo
                                         Mas estou triste...






Hoje eu queria estar enamorada                                                          
da pessoa certa
para me sentir segura e feliz,
sem ficar me debatendo entre espinhos.
Hoje eu queria pensamento positivo,
mas estou triste... 


                                                                                                                                                                                           Hoje eu queria estar morta                                                                                                    pois estaria em paz.
                                                    Queria estar rígida e fria
                                                         ser maltratada pelos vermes e solo
                                                                      e depois me transformar
                                                                                     pois estou triste...

                                                                        E QUE TRISTEZA,  MEU DEUS !!!



                                                                                             18.05.1971

TRIBUTO



Quatro corpos e uma consciência no gramado fofo do Parque Nacional.
Oito olhos e uma consciência na neblina opaca de uma noite.
Oito mãos que tremem e se enregelam,
que se buscam mutuamente
na solidão que tem regido os quatro corpos                                  
desde que a luz lhes brilhou.
Quatro corpos e uma consciência e só um par de olhos alagados
no iceberg do anoitecer.
Ninguém é mudo, ninguém sofre...
Só a consciência busca no passado uma ponta de mágoa
com aquela água salgada e amarga
que faz o olhar brilhar.
Quatro corpos na noite medieval banhando-se de luar
fartando-se de paz.
Nasce um amor... outro morre;
os dentes brilham na reencarnação.
O sol nasce dentro dos corpos
e as oito sombras unem-se numa só.
Um ódio guardado, bons tempos lembrados
e talvez um ciúme nascendo e crescendo,
virando gigante.
Mãos se buscam e se entrelaçam num completo dilúvio de amor,
sonhos nos sonhos, sorrisos manchados de lua.
Tudo vem... Tudo é real.
Até a lágrima que rola isolada e tranqüila
e se afoga no lago do Parque Nacional.
Que água escura, meu Deus !!!                                                                      

A distância isola a consciência; isola as consciências
e  forma-se um mundo novo para se viver aos domingos.
Que dure este mundo maravilhoso de serpentes amarelas
de estátuas e natureza.
Corpos se encontram e dão luz ao amor
forte e risonho.
Olhos se miram e deste vendaval de cores
nasce a fraternidade.
E nestas mãos que se encontram,
nestas bocas que se calam
está o intenso vigor do século XX.
Existe um ponto de paz no Universo
para se viver aos domingos.
No centro da terra,
as margens do lago,                                                                     

ao lado da selva de pedra.
Existe um Éden para as sombras
que se agarram, se abraçam e sorriem,
cantam, ouvem e se recordam.
Não importa a idade,
o nome não importa,
que importância tem a cor ?
Braços jovens na louca vontade de vencer,
sangue quente,
quente boca.
Voz rouca,                                                                

idéias loucas,
loucos ideais...
Amém.

             
                                                       


31.05.1971


terça-feira, 20 de agosto de 2013

EU E A CRUZ


         



De um lado o mar, o céu, a lua,
um punhado de pescadores,
uma mistura de nostalgia e paz, 
e o farol vermelho girando...sempre girando.

Do outro lado a rua, os faróis,
o ruído intenso das buzinas,
os homens, as mulheres;                                                                

pálidas figuras no negror da noite;
dezenas de edifícios que se perdem na distância.

Para trás nada...
só o silêncio e a escuridão da noite
e a sensação gostosa de passado.

No centro eu.
Eu e minha melodia,
eu e minha tristeza,
eu e meus sonhos.

Sob meus pés o ruído dos meus passos,
solitária cadência,
e minha sombra gigantesca
sob o luar.
O ritmo é marcante.
Seis horas da tarde. Copacabana !!!

Na frente, em meio à distância um arranjo de luzes,
imensa torre no bazar oriental da minha noite,
que a cada passo meu, mais se aproxima.
Vai minha sombra errante na noite, sob sussurros,
e o arranjo de néons se aproximando
num carnaval de cores.                                                              

Defino-o num lampejo:
uma imensa e maravilhosa cruz 
na capela à beira mar.
Penso em Deus... Sinto Deus.
Aquele Ser Criador que fez-me assim
infeliz.
No alto, como entre as estrelas
só avisto a Cruz
e o cenário da noite
a torna misteriosa.

Devaneando vou ao seu encontro
na esperança de enfim
ao encontrá-la
me encontrar.


                                                  





                        10.05.1971

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

NADA

                                             




                                               Na minha escuridão
                                                    não brilha uma só luz.
                                                        Nesta interminável  noite
                                                            nem uma estrela pisca.
                                                             Tudo é cegueira,
                                                               tudo é treva...
                                                                 Não há sul ou norte,
                                                                    não há frio ou calor.
                                                                     Nada se vê...
                                                                         Nada se busca.
                                                                         A desesperança escura,
                                                                            escurece os sentimentos,

            e o ar carregado,
                impregnado,
                       poluído,
                           penetra nas entranhas
                                num rasgo de dor.
                                     Tudo é vazio, inútil ou frio.
                                Eu, na imensidão desta tristeza,
                             sou como um barco sem rumo,
                        como ave sem ninho,
                 como rochedo sem mar.
            Sou como a brisa gelada,
                                                                          que espalha desconforto.
                                                                     Como sempre fui,
                                                               como sempre, sempre:
                                                          nada...


                                                                                                             
                                                                                      

              02.08.93

Maria do Beco

                                                                                                 MARIA DO BECO       Conheci ...