sábado, 24 de agosto de 2013

ANGÉLICA NA ESTAÇÃO

                                 





Em cima da alta escada, com um beijo morto na boca,
Angélica, angelical, vestida de renda irradia só ternura.
Sua imagem se assemelha à santa, deusa ou a louca,
acenando o já molhado, lencinho de seda pura.

Seu rosto lavado e branco verteu pranto até agora,
não se nota mais pintura no seu olhar tão molhado.
Seu lenço agita-se ao vento pois já é chegada a hora,
de sentir a longa ausência daquele que é seu amado.

                          


                              


Angélica, angelical nos seus descalços pezinhos,
tem a boquinha tremida e o cabelo solto ao vento,
de carmim pintou seu rosto que agora fica limpinho
sem o carinho gostoso que parte neste momento.
                             

Lembra as carícias ousadas de quem se vai neste trem,
recorda sem um rubor, conversas bem excitantes.
Odeia por um momento o tempo que vai e vem
e o tempo que vem agora, a separa do amante.

                                                               


Angélica, angelical  lembra o passado proibido,
e não se lhe quebra no olhar, a inocência e a castidade.
Seu prazer passado e limpo, foi prazer mais que sentido,
nas mãos sábias e macias do que vai p’rá outra cidade.

É hora ! Seu lenço se agita como seu coração palpita,
e o sorriso meio ao pranto é uma dádiva de Deus.
Seu amado parte agora, neste trem que ainda apita,
e tem que levar na lembrança, só um dos sorrisos seus.



Parte o trem e Angélica fica sozinha.
Antes que o dia morra e o sol entre,
desce do colo sua fina mãozinha
e acaricia o anjo que já vive no seu ventre.




                                                 1971


       

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