sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Maria do Beco

                                            




                                                    MARIA DO BECO

      Conheci Maria do Beco logo que fui trabalhar naquela escola de comunidade. Minha tarefa era, entre outras, abrir o portão para entrada dos funcionários, o que eu fazia pelas  6 horas da manhã. Chegava sempre muito, muito cedo.
     Um dia, assim que cheguei no pátio, ouvi um choro de mulher. Não um chorinho baixo e lamentoso, mas um pranto escandaloso, intercalado de gritos e súplicas. Vinha da rua. Pude distinguir as palavras que me chegavam carregadas de desespero e ouvi-las fez-me sentir uma tristeza muito grande.
___ Socorro !!! Alguém me ajude ! Pelo amor de Deus !!! Quero meu filho ! Soltem meu filho !
___ Isaias !!! Meu filho, mamãe está aqui ! Vim te buscar, minha vida.
     E pranto... E choro.
___ Meu filho!  Meu filhinho...
     Com medo abri o portão devagar. Já conheço histórias de pessoas que são levadas para as comunidades condenadas pelo Tribunal do tráfico, e que lá dentro, deixam suas vidas por motivos vários.
     Foi aí que vi a mulher. Uma negra forte, despenteada, de bermuda jeans, camiseta branca, pés no chão. Fazia um frio de doer em pleno mês de julho. Havia chovido a noite inteira e ela ali sem agasalho, naquele desespero. Encostada no muro da escola, ela foi escorregando até sentar-se no chão molhado. Abafava os gritos com as mãos e agora já pedia ajuda em sussurros.
     Medrosa, fechei o portão lentamente e fiquei ansiosa para que alguém chegasse e me ajudasse a ajudar aquela mulher.
Daí a alguns minutos,  o primeiro funcionário chegou e para minha surpresa ao ser indagado por mim se havia visto a mulher, falou-me que não havia ninguém do lado de fora e nem nas proximidades da escola.
Incrédula abri o portão e realmente não estava mais lá.
     Fiquei ainda mais preocupada e arrependida da minha  omissão, mas o que eu podia fazer por ela ? Sei que o  trafico é implacável com quem ajuda seus condenados. Eu,  tão nova na comunidade... Não. Não podia fazer nada.
Mas imaginei que a mulher, ignorando os perigos, tinha subido o morro para tentar, mesmo ao preço de sua vida, resgatar seu filho. 
     Quando as primeiras mães chegaram trazendo seus filhos, comentei o episódio. Mulheres tem uma parceria movida pela sensibilidade,  que as torna cúmplices, principalmente quando se trata de proteger os filhos. Quem sabe, uma delas conhecesse o chefão do pedaço e pudesse interceder pelo menos para que aquela mãe pudesse beijar o corpo do filho e enterrá-lo dignamente.
     Mais surpresa eu fiquei ao conhecer a história da Maria do Beco (era assim que era conhecida aquela mulher) que a três anos vivia numa peregrinação em torno da favela, buscando o filho  que havia sido morto pelos traficantes.

***Maria veio do Piauí, com um bebê no bucho, atrás de um canalha que depois de a ter desgraçado, a abandonara buchuda para fugir da responsabilidade de pai. A família a jogara no mundo, só com o dinheiro da passagem e uma trouxinha com uns farrapos.( Também, não tinham como fazer mais do que isso. Mal se sustentavam. Como arcar com um bebê, fruto da falta de  juízo da filha namoradeira que não ouvia conselhos ?)
     Chegando aqui, sem ter pra onde ir, Maria ficou nas imediações da Rodoviária junto com outros moradores de rua. 
Via-se que era uma pessoa diferente. Sem vícios, limpa, bonita... A barriga crescendo.
     Não demorou e uma pessoa caridosa lhe ofereceu emprego. Não podia pagar muito,  mas tinha um quartinho onde ela poderia ficar até a criança nascer, em troca de cuidar das tarefas da  casa para que a patroa pudesse trabalhar.
Aceitou imediatamente.
      O acordo foi cumprido na integra pelas duas e até o neném nascer Maria ficou naquela casa. Pode comprar as coisinhas de seu filho, fez o pré natal no posto de saúde e foi acolhida numa maternidade do governo onde seu filho veio à luz. Passou o resguardo na casa da patroa mas trabalhou duro, sem fazer repouso, todos os dias.
     Quando a patroa adoeceu e foi para a casa dos filhos, Maria ficou novamente  sem teto. Voltou para a Rodoviária, agora levando o filhinho com pouco tempo de nascido. Uma faxineira que sempre lhe trazia um pão por caridade, a convidou para morar na favela:
___ Maria, conheço os meninos da boca. Vou falar com eles e eles vão arrumar um barraco pra você.
Dito e feito. Assim aconteceu. Ela foi e recebeu um barraco que tinha pertencido a uma família,  que desgraçadamente caíra no desagrado dos "meninos" e por isso tinha sido expulsa da comunidade. Barraco no beco, completo. Até filtro na torneira tinha. Chuveiro quente... Caixa de água... Laje. Maria ficou muito agradecida e se sentiu protegida e tranqüila.. Por causa da forma como tinha entrado na favela,ficou muito conhecida. Quando queriam se referir a ela, diziam:  Maria do Beco por que morava no beco, num barraco ganhado. Sortuda, ela. Rapidamente se empregou novamente, mas como o emprego era longe, e ela não podia levar o filho,arranjou uma pessoa para cuidar de Isaias durante o dia.
Quando ela chegava à noite o menino a recebia com uma saudade que parecia ser de anos. Um sorriso irresistível iluminava aquele rostinho amado. Isaías era tudo para sua mãe.
     Homem ??? Não quis mais. Muitos a quiseram. Bonita, trabalhadeira , quem não ia querer . Vagabundo brigou, paquerou, agradou... Até flores ela ganhou, mas não cedeu.
___ Meu homem é esse aqui, ó !  
E apontava Isaias, cheia de maternal orgulho.

     E o menino crescia em graça e desgraça.
     Convivendo com a mãe só nos finais de semana e com traficantes todos os dias, cedo,  cedo tornou-se um viciado. A primeira "fungada" foi de graça. Um "tio" amigo de sua mãe foi quem deu:
___Oferta da casa...
     A mãe trabalhando nem sonhava com o que estava acontecendo. Quando chegava encontrava seu menino sempre sorrindo, sempre alegre.
___ Foi  pra  escola ?
___Fui, mãe.
___Ande, mostre cá as tarefas...
     E ele mostrava porque ia   mesmo  na escola. Afinal era lá que ele já vendia alguns "baseados " e alguns "pinos " de cocaína. Coisa pouca... Pouca mas que dava para sustentar seu vicio. Alem do mais, era lá que podia se encontrar com Marcela e  dar  uns beijinhos no cantinho do pátio.
      Certo que gostava um bocado de matemática e ciências, mas pra que servia ?  Endolação não se ensina em livros.
     Criado solto na favela, Isaias  sabia aos 12 anos muito mais do que sua mãe aprendera em toda sua vida.
     O jovem era muito considerado na favela. Respeitava as senhoras, era inteligente, mantinha uma boa relação com os homens , estava sempre disposto a ajudar nos mutirões e era um doce com sua mãe.
     Maria achava que ele trabalhava nas kombis de linha,  pois sempre tinha um dinheirinho, e como era bom em matemática, fazer troco era  com ele mesmo. Ajudava um pouquinho nas despesas mas era pouco. Maria segurava tudo. O negócio era o filho estudar para ser um grande homem. Nada de trabalho sério agora. Tinha tempo.
     O estudo do menino se concentrava principalmente em aprender as coisas do trafico e quando foi requisitado para a "boca" e recebeu o primeiro "ferro" sentiu-se diplomado. Feliz até. Pena que sua mãe não entendesse que aquele era o trabalho que dava dinheiro. Aqueles eram os seus heróis,  iguais ao Robin Hood do único filme que ele viu na vida. Ali na "boca" era onde ele via os valores que sua mãe tanto apreciava: responsabilidade, respeito, hierarquia, compromisso, organização, bravura, companheirismo, lealdade, inteligência. Mas sua mãe, embora lhe ensinasse que devia falar com todo mundo, não queria que ele andasse lá por cima. Melhor deixar ela fora desse assunto.

     Um dia resolveu ir cobrar um vacilão que morava em outra comunidade. O cara tinha comprado fiado e não vinha pagar. Dívida de droga é sagrada. Tá pensando que é igual dever as Casas Bahia ? Se arrumou e partiu pra resolver a situação.  Gostava de subir na moto último modelo e se exibir em cima dela. (de quem era mesmo ? Nem lembrava mais.)... 

             Na outra comunidade o comando era outro e ele foi reconhecido. Tem  "alemão"  na área !!! Levaram-no para o alto para um "desenrolo" com o gerente. Não tinha saída, isso ele sabia. Não era tão ingênuo assim.  Respeitava a lei. Era assim e pronto. Não pensou em nada mais. A moto ficou lá na entrada da comunidade.
     A noticia foi alcançar Maria no meio de uma faxina. Talvez um "menino" que amasse sua mãe e que ficou com o celular de Isaías, resolveu avisar.
     Ela saiu como estava, correndo e gritando. Os chinelos ficaram perdidos no caminho. A bolsa ficou na casa da patroa. Isso a três anos. E até ontem ela repetia os mesmos gestos e gritos daquele dia. Tudo exatamente como naquele dia. No  mesmo horário, madrugada à fora,com as mesmas roupas, a mesma aflição no coração de mãe, por que foi naquele momento que Maria malucou.
Fora desse período ela ficava letárgica como um bebê recém nascido. Comia o que lhe davam e satisfazia suas necessidades como um morto vivo. Só voltava à vida na hora da tragédia.
       Estamos em pleno inverno. Faz mais ou menos 1 ano que vi Maria do Beco pela primeira vez e a partir de  então, todos os dias, no mesmo horário até a 3 dias atrás, quando não ouvi seus gritos e nem a vi passar em frente ao portão, na sua triste e inútil peregrinação. 
         Preocupei-me mas imaginei que ela finalmente tivesse encontrado uma pessoa piedosa que a convenceu de que não havia mais esperança.
         As  mães me esclareceram: “de vez em quando ela dá uma sumidinha, é quando se agita demais, fica meio agressiva e as pessoas boas internam ela pra se acalmar. Depois ela volta, assim que tem alta. Vem forte, medicada, mas com a mesma sina. “
      Ontem , ela chegou nas primeiras horas do dia. Ainda estava escuro. Por incrível que pareça, havia chovido na véspera. Seus lamentos me pareceram mais fracos. Seus gestos mais lentos.
     Como sempre, encostou-se no muro da escola e escorregou como uma lágrima até o chão. Abaixou a cabeça e soluçou como eu nunca tinha visto. Seu corpo sacudido pelo pranto reprimido, lembrava  agitações febris e eu imaginei que estivesse doente. Ia até lá  mas fui contida por um brilho intenso vindo da rua que dá acesso à comunidade. Recuei. Podia ser um carro transportando o pessoal da "boca". Farol alto. Só podia ser.
     Meu espanto foi tão grande que quase caí.
     Saindo da rua surgiu um jovem, vestido de branco. 
Bermudão, camiseta, tênis, boné. Tudo branco !  Uma luz muito forte o envolvia. Vinha sorrindo. Era um mulato de cabelos lisos e olhos penetrantes. Seu riso de dentes brancos emanava ternura e amor.
    Quase um homem! Não tinha mais que 16 anos. Vi Maria levantar a cabeça. Vi seu sorriso. Adivinhei seu olhar brilhando.
____Isaias !!!
____Mãe !!!
     Ele a ergueu devagarinho como se temesse machucá-la e a abraçou com um carinho tão grande que naquele momento pude sentir o aconchego do abraço de todos os filhos queridos,  para todas as mães.
Fechei meus olhos na tentativa de reter o calor do abraço dos meus filhos. Juro que foi por um segundo. Quando reabri os olhos não havia mais luz. Não havia mais  Isaias. Só Maria do Beco estava ali. Morta !      
                      


                                                                                (25/08/2017 )

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