terça-feira, 28 de março de 2017

A viagem.



Ah, o Tempo !!! Ah, o Tempo tão cruel,
arrasta-se em nosso corpo, preguiçoso e indecente,
enovelando-se entre as pernas, feito uma serpente,
entrando em nossa boca com gosto de fel.
Percorre nossos braços desenhando azuis raízes,
embaça nossos olhos com nevoentos matizes,
joga sobre nossos cabelos um pálido véu.


Com profundas valas, a face nos deforma,
deslizando em nosso peito, a harmonia transforma
e nosso interior sem dó desequilibra.
Por onde o Tempo passa, deixa o seu sinal,
nódoa  irremovível, cujo desfecho fatal,
concretiza-se  em nós, fibra por fibra.


As  vias  do Tempo vou um dia ultrapassar,
e tudo que eu julgava meu, terei que abandonar,
talvez sem entender porque a vida é tão fugaz.
Ao preparar então minha mala e bagagem,
só o que levarei nessa triste viagem
é  o que eu gostaria de deixar pra trás.


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Terei que ir. Sou escrava do destino,
e muito embora, em completo desatino,
melhor eu ir, querendo aqui ficar,
Na esperança, quem sabe, de um afeto,
de plantar a árvore, construir um teto,
ou uma bela poesia terminar.


Tomara que eu me vá, enquanto ainda perdura,
no fundo da minha alma o refúgio da ternura,
e enquanto viva, o  existir  me  der  prazer.
Guarda-me Deus, de no meio da estrada,
dar a minha missão por terminada,
e implorar a natureza pra morrer.


É o próprio Tempo que se abre em caminhos,
que nos traz a poeira, flores e espinhos,
que se desfaz em desvios, atalhos, trilhas.
É o próprio Tempo que invade nosso espaço,
que nos prende os pés como que em fortes laços,
mutando dias em milhas e milhas.


Quando eu finalmente me for além do Tempo,
não emita por mim um só lamento,
pense que a tristeza é o Tempo quem desfaz.
Ao ter saudades sinta o Tempo e o Espaço
pois finalmente livre, em Tempo me desfaço,
pra realizar o sonho de ser paz.



                                         28/03/2017


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Maria do Beco

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